
Menos disputado devido ao rápido avanço tecnológico dos últimos 50 anos, o circo, apesar dos pesares, ainda é capaz de entreter
A trupe chega à cidade com suas lonas e braços fortes para erguê-las. De longe é possível ver a colorida e contagiante estrutura. Não demora muito e grande parte dos moradores fica sabendo da novidade: uma grande festa com trapezistas, palhaços, domadores e malabaristas. O cheiro da serragem espalhada no chão denuncia o espetáculo, prestes a começar.
No local, de 30 mil metros quadrados dedicados à arte circense, não é preciso comprar ingressos; basta levar um dinheirinho para comprar aquelas guloseimas típicas de circo, que a criançada – e também os adultos – adora. Pipoca, algodão-doce, churros, maçã-do-amor, tudo integra o clima.
O Festival Paulista de Circo, pelo segundo ano consecutivo, foi realizado em Limeira. Os cinco dias de diversão garantida foram promovidos pela Secretaria Estadual de Cultura para incentivar uma das mais antigas artes e formas de entretenimento no mundo, como destaca o coordenador da Unidade de Fomento e Difusão de Produção Cultural, André Sturm.
Se surgiu na Roma Antiga, tendo como picadeiro o Coliseu, na Grécia, Egito, na China ou na Índia, há mais de 4.000 anos, isso não importa. O que vale mesmo é que essa arte se mantém viva, apesar do tigre, do elefante e de outros animais que nem sempre podem se fazer presentes.
Trabalho dobrado para o palhaço, que tem por obrigação fazer rir, mas que muitas vezes não consegue tirar as tão esperadas gargalhadas do público, ansioso por novas piadas e trapalhadas. “Por mais que nos esforcemos, temos sempre que contar com os imprevistos e usar a improvisação”, observa Paulo Cerello, o Gallo, dono do circo Vox. “Temos que nos reinventar a cada apresentação”, completa.
O malabarista nem pisca para não derrubar seus pinos; na dança com os tecidos, uma mistura de aparente leveza com equilíbrio e força. A trapezista, com pouca roupa e movimentos precisos, poderia ter escolhido uma vida menos arriscada. Formada em Ciências Sociais, Ieda Cruz desistiu da carreira: teve um apelo mais forte, o da alegria do circo.
Diferente do mitológico Sansão (de Dalila), a força da quase anônima Joana Piza não está exatamente nos cabelos, durante a apresentação da sustentação do corpo pela resistência capilar. Não estamos falando de truque e sim de técnica, o que não cabe aqui desvendar; caso contrário, acabaríamos com os sonoros “oooooohs” da plateia, impressionada e, ao mesmo tempo, bem desconfiada. Mas nos bastidores, antes de se apresentar, a circense, formada em Artes Cênicas, demora praticamente uma hora para trançar o cabelo, com a ajuda do marido. Tanto esforço para um número de poucos minutos. Depois lá se vai mais uma hora para soltar as madeixas.
As quatro tendas armadas ganharam nome de palhaços famosos: Arrelia, Piolin, Carequinha e Pimentinha. A céu aberto, palhaçada por todos os lados, os pernas-de-pau chamavam a atenção da criançada, com fantasias sufocantes para eles, porém divertidas para o público.
Nos bastidores dessa festa, nada de camarins, apenas espaços improvisados. Os maquiadores são os próprios artistas, que se pintam, colocam perucas e roupas extravagantes com a mesma empolgação e ansiedade com que adentram o palco. Tudo parece uma grande brincadeira, exceto pela dedicação desses profissionais, que escolheram uma vida aparentemente à prova de monotonia, passando de cidade em cidade, levando a arte circense. Entre um artista e outro, sobrenomes ou histórias em comum. O palhaço é pai da trapezista, que, por sua vez, vive com o malabarista, que também tem um pouco de contorcionista. Famílias inteiras que compõem o circo ou se formam a partir dele. O trapezista, palhaço e também empresário César Guimarães, dono do circo Fiesta, faz parte da quinta geração de uma família de circenses. E levou o legado adiante. Sua esposa é trapezista, a filha faz apresentações em tecido e lira e o filho caçula começou a atuar recentemente como palhaço. César admite: não é fácil viver de circo, mas não consegue se imaginar fora dele. “Nós, artistas do circo, somos como tartarugas: carregamos nossa casa nas costas”, brinca.
Nessa festa, é provável que o público represente o papel principal. As marcas do tempo, cravadas no rosto de uma certa “senhorinha”, não foram capazes de esconder aquele olhar latente de quando ela tinha por volta de sete anos e viu pela primeira vez o circo. A criança que não se cansa de sorrir e mostrar suas “janelinhas” ao palhaço Gachola. Os adultos continuam com a desculpa de que vão para levar os filhos, mas é óbvio que mantêm em suas veias a essência dos picadeiros. Este é o circo de ontem e de hoje. O de amanhã? Mistério.