Paulo Stocker

Eduardo Rodrigues
Tulípio: melhor cartum no HQMix
Os artistas Eduardo Rodrigues e Paulo Stocker, respectivamente texto e traço da revista Tulípio, que narra aventuras boêmias do personagem homônimo, foram laureados, na categoria Cartum, no 21º Troféu HQMix, o mais representativo do segmento no Brasil. O evento de premiação, no dia 21 de agosto, foi realizado no teatro do Sesc Pompeia, em São Paulo.
Além de Rodrigues e Stocker, nomes consagrados do meio também foram reconhecidos. Fernando Gonsales, por exemplo, recebeu duas estatuetas (o molde dos troféus remetia aos dotes físicos de Mirza, personagem de Eugênio Colonnese), por seu rato Níquel Náusea, veiculado diariamente na Folha de São Paulo. Laerte, com seus Piratas do Tietê, faturou na categoria Publicação de Humor. O cartunista subiu ao palco mais uma vez ainda, para receber o prêmio de melhor chargista em nome do colega Angeli. Serginho Groissman foi o MC da noite (na verdade, função que desempenha desde a primeira edição do HQMix), que recebeu o ministro da Educação, Fernando Haddad, responsável pela inclusão, a partir de 2006, das obras de quadrinhos na lista do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE).
A revista Tulípio, com tiragem de 20 mil exemplares, é distribuída gratuitamente em bares de São Paulo e Rio de Janeiro. De tempos em tempos, a dupla resolve convidar alguém para fazer um texto (ou charge, como nos casos de Ziraldo, Paulo Caruso, Glauco e Jaguar). O ex-jogador Sócrates, que indicou a dupla para a Revista Boemia, onde a charge Tulípio é publicada no verso da contracapa desde o segundo número, e o escritor Ignácio de Loyola Brandão já participaram.
Para quem quiser saber mais sobre Rodrigues e Stocker, e principalmente sobre o divertidíssimo Tulípio, basta acessar http://tulipio.uol.com.br. Para saber mais sobre a premiação, basta acessar http://blogdosquadrinhos.blog.uol.com.br/.
Trechos do texto de Ignácio de Loyola Brandão para a revista Tulípio:
Se a mulher nunca esquece o primeiro sutiã, um homem nunca esquece o primeiro bar. O meu foi o do Pedro, em Araraquara. Que não era do Pedro, era do Hotel Municipal, o Pedro era um homem alto, corpulento, moreno, educadíssimo, o melhor garçom da cidade, sabia tratar o vagabundo e o grã-fino, ainda que o grã-fino seja mais difícil.
No bar do Pedro destinos foram traçados. Eu, que ia fazer cinema, acabei escritor. O Zé Celso, que não era o maior frequentador, mas aparecia, sabia que o advogado acabaria no teatro. O Salinas Fortes tinha na cabeça que a filosofia era o seu mundo e acabou traduzindo Sartre. O Faruk fazia odontologia, mas sonhava ser cantor de boleros. Teve consultório e cantou em cabarés e bares noturnos. Marco Antonio Rocha – outro eventual – fez direito, mas foi para o jornalismo, para a economia e a política, para a televisão. Tudo pensado, conversado, discutido, debatido, gritado no bar do Pedro.
nem tudo são cores
Em telefonema com a redação da Revista Boemia, Paulo Stocker se disse feliz pelo reconhecimento da classe e muito aborrecido com a cobertura dos noticiários de cultura. "O ministro da educação estava presente, mas o da Cultura, não. O ex-ministro da Cultura usa da Lei Rouanet [de acordo com a Folha On Line, Gil tornou-se monossilábico ao tratar da questão], mas o nosso segmento é cercado de desdém, a ponto de um jornalista me perguntar o que eu achava da falta de tradição do Brasil em quadrinhos. Ora, se tem algo que o Brasil possui é tradição em quadrinhos. Estamos cercado por essa ignorância, por esse desconhecimento".
Stocker enxerga esse "desdém" como absoluto desprezo não aos cartunistas, mas à própria cultura nacional. "Temos assistido, passivamente, à internacionalização dos cadernos de cultura. Não sou contra o intercâmbio, sou contra o caminho de mão única. A importação está em todos os jornais. E a exportação? Só vamos exportar produtos genuinamente brasileiros quando produzirmos material de qualidade, com a proteção que os argentinos fazem aos seus artistas. Existe até um concurso da revista El Fierro só para argentinos. Os jornais de lá só publicam material que eles produzem. Precisamos acabar com essa mentalidade colonizada", avalia.
Na noite da premiação, após um discurso inflamado, e posteriormente aclamado, Stocker conta que a força de Não Verás País Nenhum, título de um dos mais celebrados romances de Ignácio de Loyola Brandão, teria lhe "preenchido totalmente a cabeça". "A mensagem é profética. De fato, não vejo meu país, não vejo a cultura do meu país refletida na mídia. A profecia do Loyola começa a se concretizar. Infelizmente".