O número é devastador: 90% dos municípios brasileiros não têm uma única sala de cinema. Aparentemente, se comparada essa questão com a ausência de redes de esgoto, evasão escolar, assistência pré-natal, cotas raciais, meio ambiente, saúde pública, renda mínima e mais uns cem ou duzentos etecéteras, concluiríamos, assim por alto, que o fato é irrelevante. Pra que serve uma sala de cinema em cidadezinhas onde falta tudo, inclusive dignidade e cidadania?
Simples: porque dentro de uma sala de cinema se pode sonhar. E sonho, meus amigos, não tem preço nem medida nem escala de avaliação. Dá dó de quem não sonha porque só o sonho constrói, desbrava, ousa e realiza o impossível – vide Ícaro com suas asas de cera, que permitiu ao homem justamente o impossível: voar.
Crianças que nunca estiveram no escurinho de um cinema, ao lado de outras crianças que torceram pela fuga desesperada do ET naquelas mágicas bicicletas voadoras, nunca enxergarão horizontes. Adultos que não se emocionaram com a morte da cadela Baleia, na aridez de Vidas Secas, jamais terão dados justamente emocionais para pensar o país que sonham para seus filhos.
Não importa quantos filmes precisemos ver para que encontremos aqueles que nos levem a repensar nossas vidas, nossas relações, nossas competências, nossas misérias. Eu já disse aqui mesmo que filmes são sempre belos, até quando não são bons, pois com eles aprendemos olhares, copiamos penteados e entendemos que afeto produz milagres como o de Anne Sullivan. Dá dó de quem não vê filmes porque são pessoas que não imitam o Humphrey Bogart, não sabem das saias godês de Grace Kelly em Janela Indiscreta, não voltam o rosto diante do espelho para dizer “meu nome é Gilda”, como ela disse, não montam cavalinhos de pau em cabos de vassoura nem atiram com a ponta do indicador em nome da lei e da ordem.
Dá dó das cidades que não têm cinema. E dó maior ainda por serem quase todas as deste Brasil de meu Deus. Porque além da miséria palpável em que vive a maioria delas, há a miséria interior, aquela miséria sem nome que é a falta da beleza, a falta da poesia, a falta da experiência sonhada com toda sua capacidade transformadora.
Uma sala de cinema não é luxo, é direito de todos porque é o direito ao riso, ao choro, ao medo, à simulação de uma vivência, à catarse. É, sobretudo, o direito ao sonho. E quando, afinal, entenderão o Ministério da Cultura, o BNDES, os governos municipais, estaduais e federais, a iniciativa privada ou seja lá quem for que quanto maiores forem os sonhos dos brasileiros, maiores serão as possibilidades de sua realização?
Hoje, aqui, sem dó, sonhemos. Não com o país possível, com o país viável, mas com o país dos nossos sonhos, que só será possível se o sonharmos. De preferência de olhos bem abertos, diante de oito ou dez mil telas coloridas de imagens atordoantes, seja do Indiana Jones ou do Harry Potter, da Cidade de Deus ou dos últimos dias de Pompéia.
PS: Zezé Brandão também tem dó dos livros que não são lidos, que se perdem solitários nas prateleiras empoeiradas das livrarias – mais de 90% dos municípios brasileiros não têm nenhuma. E tem dó do Monteiro Lobato porque, ingênuo, ele acreditava que um país se faz com homens e livros – provavelmente ele sabia que também com filmes. O que ele não sabia é que seu país não teria livrarias. Nem cinemas.
Zezé Brandão é publicitário e co-autor do livro A Vida Não É Um Limão, A Vida É Uma Limonada