O Brasil (d)escrito pela literatura italiana

O Brasil está presente no imaginário coletivo italiano e nos textos de cronistas e aventureiros da Vecchia Bota desde Américo Vespúcio. Mas a primeira obra ficcional escrita por um italiano, com o Brasil no centro, foi Nhanhã – Racconto Brasiliano, de G. P. Malan, publicada em 1895.
O autor analisa as causas da emigração. Para ele, os camponeses italianos emigravam ou porque não possuíam terras ou porque sofriam com a prepotência dos patrões. O conto só tem início quando descreve a chegada do protagonista ao Brasil, o médico Arturo Trivelli, que logo se depara com a hospitalidade e as enormes dimensões brasileiras. O protagonista de Nhanhã, porém, não só se espanta com a pujança natural brasileira, como também não consegue evitar as comparações com a “palidez europeia”. Apenas no sétimo capítulo apresentam-se, finalmente, os protagonistas. Malan descreve a “Fazenda Palmira”, a poucos quilômetros de Campinas, e conta a história de imigração do pai da italianinha Ausonia, cujo apelido era Nhanhã, isto é, “padroncina in lingua portoghese”, de acordo com as palavras do autor. A trama se desenvolve propriamente quando aparece a personagem De Carli, que tentará seduzir Nhanhã para ficar com o dote. No happy-end, Nhanhã consegue se livrar de De Carli e se casa com Arturo Trivelli. Percebe-se que Malan não pretendeu contar a saga da imigração italiana no Brasil. Buscou apenas contar a história (baseada em fatos reais) de um italiano apaixonado pela bela filha do fazendeiro que “fizera a América”.
Serão necessários mais de 20 anos para que os escritores italianos voltem a se referir diretamente ao Brasil. De fato, em 1920, Enrico Corradini publicou La Patria Lontana, cujo início mostra o cotidiano de um navio carregado de imigrantes de todos os tipos e nacionalidades em direção ao Rio de Janeiro. Na descrição, nota-se o repúdio do autor pela exportação de “mão-de-obra barata italiana”. Percebe-se claramente o sentimento de vergonha nacional que a intelectualidade italiana possuía diante da imigração em massa nas primeiras décadas do século passado. Apesar da visão preconceituosa do autor, não se pode negar que Corradini realizou o retrato fiel do italiano que procurou superar o trauma da imigração e conseguiu “fazer a América” e manter praticamente intacta a italianidade. Um ano depois de La Patria, foi publicado na Itália o estranho romance Una Caccia Tragica, de Giuseppe Marolla, cuja trama se desenrola no estado de São Paulo, com referências à “escravidão branca” dos colonos italianos nas fazendas de café e, embora poucas, à vida modesta dos imigrantes. Ao autor interessava ressaltar o aspecto exótico, e por isso chegou a descrever o interior de São Paulo como uma espécie de Floresta Amazônica, cuja atmosfera lembra a dos “fumetti” (histórias em quadrinhos). Surgem índios cruéis, rainhas raptadas (e com nome espanhol, ainda por cima!), macacos gigantes e centenas de assassinatos apresentados nos detalhes mais cruentos.
Após o intervalo da Segunda Guerra Mundial, a literatura italiana só voltará a se referir ao Brasil no final dos anos 50. Giovanni Passeri, no seu Il Pane dei Carcamano, de 1958, misturou ficção e entrevistas com imigrantes italianos de várias cidades brasileiras. Trata-se de um dos poucos livros que contam a história dos imigrantes italianos como uma grande “odisseia”. A obra assemelha-se a um livro de contos em que cada personagem se apresenta ao leitor e relata as aventuras em terras tropicais; pode-se compará-la à literatura-reportagem dos escritores americanos dos anos 20 ou a alguns contos do nosso Alcântara Machado.
A vasta galeria de personagens de Il Pane inclui todos os tipos de desventurados e bem-sucedidos, do mendigo ao arrivista, do simples operário que acredita no futuro do país ao “arrependido” ou saudosista, e acrescenta ainda alguns perfeitamente integrados. Aliás, uma das mais interessantes conclusões a que chegou o autor refere-se à perfeita integração dos imigrantes que alcançaram a independência financeira.
A década de 60 foi marcada pela redescoberta do Brasil na literatura italiana. Entre as obras de ficção, destacam-se os livros de contos da escritora Maria Barbareschi. A autora publicou, em 1968, Brasil, Meu Bem – Novelle di Costume e di Colore. No prefácio, Barbareschi adverte que a nostalgia do Brasil a levou a escrever os textos.
Quase todos os contos do livro referem-se ao sensualismo brasileiro ou aos mitos de Iemanjá e outros do nosso folclore. O interesse que esse tipo de narrativa conseguia despertar no leitor italiano da época resvalava no puro exotismo, com uma pitada de consternação diante das difíceis condições de vida do nordeste brasileiro.
Em 1970, ela publicou Il Samba, em que a denúncia social foi mais intensa, mas o sincretismo religioso e o exotismo continuaram a fascinar a autora de tal maneira que a impediram novamente de analisar com mais profundidade a cultura brasileira.
Nas últimas décadas do século 20, muitos foram os escritores que se referiram ao Brasil. Limito-me a citar apenas Nora Rosanigo, que em 1971 publicou Diluvio in Alagoas, retrato lírico da miséria nordestina, e os muitos escritores que denunciaram a destruição da Floresta Amazônica – Ragazzo Indio, de Silvano Pezzetta (1972), L’Amazzonia Interiore, de Luciano Caminati (1990), e Amico Indio, de Lidia Marzotto (1995). A questão social ligada aos Sem-Terra também originou vários romances, como Sem Casa Sem Terra – Una Storia del Nordeste Brasiliano, de Arrigo Casalini. A década de 90 é fechada com a narrativa italiana que intercala memórias de viagem e denúncia social, sobretudo urbana. Entre os que buscaram a denúncia aberta está o romance E Decise di Chiamarsi João, de Mario Bertin (1996). Baseado em fatos reais, retrata sem meias medidas e com certa crueza a solidão e o desamparo dos meninos de rua.
Para concluir, temos o romance Brasil, de Fra’Gervasio, pseudônimo sob o qual se esconde um misterioso escritor. Publicado em 1997, trata-se certamente do último romance italiano que se referiu diretamente ao Brasil. Fra’Gervasio (Frei Gervasio) insere o Brasil definitivamente na literatura de sátira política italiana, pois o objetivo central do livro é a denúncia em tom de comédia das mazelas da política italiana na época do movimento Mãos Limpas. As “flechadas” disparadas pelo romance são múltiplas, e não poupam nem Silvio Berlusconi nem o juiz Antonio di Pietro, protagonista dos processos que levaram à prisão inúmeros políticos e empresários. Escrito num curioso pastiche de italiano medieval, Brasil lembra uma paródia de O Nome da Rosa. O romance começa justamente com a exaltação das belezas de um país paradisíaco, no qual o protagonista Gervasio se encontra refugiado e se põe a contar ao leitor as peripécias vivenciadas, que vão de assassinatos misteriosos que, mais uma vez, parodiam o best-seller de Umberto Eco, a alusões quase explícitas a políticos italianos da época (e de hoje em dia), como Berlusconi ou Umberto Bossi. Na conclusão, o tom satírico torna-se carnavalesco. Não se trata, porém, de retrato exótico do Brasil, mas de uma divertida proposta para o impasse da crise política italiana, na qual a alegria do carnaval poderia representar a válvula de escape. Com referências de Jorge Amado e Umberto Eco, o último romance italiano a tratar do Brasil procurou adequar a visão exótica do paraíso tropical ao desejo de renovação das classes políticas.
Sérgio Mauro é Professor Doutor de Língua
e Literatura Italiana da Faculdade de Ciências
e Letras da Unesp Araraquara